sexta-feira, 12 de junho de 2009

2009.06.12 - Rodovia da Morte e da Vida, Nozinho e a inspiração natural - Jornal Bom Dia

Geral -
José Sana

Amigos, quem inventou o epíteto Rodovia da Morte? Resposta para adiantar a conversa: a imprensa. Não se sabe - pelo menos eu e mais alguns amigos não sabemos - o nome do jornalista que escreveu ou falou e do órgão de comunicação que divulgou em primeira mão o lúgubre slogan. Negativa a idéia do nome, mas compreensível acima de tudo. O objetivo foi, principalmente, sensibilizar as autoridades para os perigos de se trafegar na BR 381, principalmente no trecho João Monlevade a Belo Horizonte. Vingou? Apenas parcialmente, porque os chefões políticos ainda não se conscientizaram de que é preciso duplicar as pistas da dita estrada.

É oportuno relembrar que, no final da década de 1970, a mesma rodovia, então conhecida como BR 262, estava igualmente congestionada, e era palco de seguidos acidentes com mortes trágicas. Aí, sem que houvesse campanhas acirradas, o governo decidiu construir a terceira pista. Entraram na jogada empresas como Vale, Belgo-Mineira, Usiminas e Acesita. Por certo tempo, o trânsito melhorou, os acidentes reduziram-se e a vida continuou.

Mas, a indústria automobilística cresceu, o mercado consumidor idem, um puxando o outro, as pistas voltaram a ser ocupadas por milhares de veículos de todos os tipos e marcas. Quem não tem o seu carro? Bem, há os comedidos e os que se auto-intitulam miseráveis (grande parte para fazer jus às benesses do governo paternalista) e os tais não têm acesso a financiamentos malucos de até 80 meses. Em outras palavras, temos os pirados da cuca que financiam carros mesmo sabendo que esse vai para o ferro-velho enquanto as prestações continuam vencendo.

Voltando à Rodovia da Morte, me assentei horas e horas ao lado de pessoas que falam sobre o tema: "Acho que o que há de mais insensível na face do planeta Terra se chama governo", me disse um senhor de meia-idade, contemplativo sobre o que vê à sua volta. "Há anos essa maldita BR 381 mata mais que qualquer doença e até que uma guerra cruel; mas um presidente da República nunca é tocado pela desgraça geral", complementa.

Mais à frente ouço de uma senhora o grito de dor cravado na alma: "Perdi parentes, perdi amigos, perdi tantas preciosidades nessa estrada e sei que milhares perderam. Nunca consigo entender por que os governos nada fazem para nos socorrer". Ela é complementada pela análise de um filho bem-informado: "Leio nos jornais que vão instalar radares; o governo não sabe que radar só serve para conter a velocidade em alguns pontos? Não tem levantamento que mostra ser à ultrapassagem nas curvas a maior causa dos seguidos acidentes?"

Opinião geral à parte, vamos pular de Rodovia da Morte para Rodovia da Vida, um paradoxo inimaginável até então. A proposta vem de nossa vizinha São Gonçalo do Rio Abaixo, mais particularmente da visão natural do prefeito Raimundo Nonato Barcelos, o nosso amigo Nozinho. A simplicidade dele o levou a meditar onde normalmente meditam os sábios: apoiando a cabeça no travesseiro. Já ouvi dele, logo dele, dirigente de uma cidade que cresce com a mineração agora sufocada por uma tal de crise, contrário até à palavra como norma conveniente a um prefeito: "Pior que o mal é a propagação de palavras sobre o mal".

Talvez por causa disso, Nozinho tenha aparecido agora com a sua proposta de mudar o nome da rodovia. Ele sabe, acredito porque todos sabemos, que o governo federal, o principal responsável pela calamidade que se instalou de Governador Valadares a Belo Horizonte, é mais que insensível, ou seja, inerte e irresponsável sobre esse assunto. Mas também tem a coragem de dizer que nós, motoristas e usuários, carregamos uma parcela significativa de culpa por acidentes que ocorrem constantemente nesses trezentos e poucos quilômetros de extensão do trecho.

A educação no trânsito é uma seqüência da educação da vida e nisso, infelizmente, o brasileiro de modo geral ainda é analfabeto de pai, mãe, filho, avó e empregada. Excesso de velocidade, ultrapassagens em faixas contínuas, uso e abuso de drogas e do álcool, xingamentos incontidos, desentendimentos inaceitáveis - tudo faz parte do repertório de motivos de acidentes e mortes. Então, Nozinho lançou, de sua cidade, esperando que outros municípios situados ao longo da rodovia adirem à idéia, o apelo à mudança de cultura.

Alguém pode dizer que Nozinho, quando concebeu o plano, se foi mesmo com a cabeça apoiada no travesseiro, que ele dormia e sonhava. Mas ninguém pode contestar que o seu sono e o seu sonho foram embasados numa real proposta: é assim que se muda um contexto negativo secular.

O único risco que corremos com a proposta de Nozinho é que reduzam substancialmente os índices de acidentes e, então, o insensível governo federal tenha encontrado a razão para acordar de sua inércia e ter a coragem de blasfemar que não precisamos mais de duplicação. Fora tal risco, e até para extirpá-lo da imaginação, o aconselhável daqui para frente é que todos dêem as mãos e batam à porta do palácio de Brasília para o grito final: "Sejam governo, governo, e não desgoverno, senhores desgovernados!" - palavra de uma senhora que reclama parentes perdidos perto de Nova União.

José Sana é diretor da revista DeFato, de Itabira

Fonte: http://www.cidademais.com.br/noticias/?id=24817

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