Iniciativa é reforçada por usuários da internet; e-mails circulam numa campanha "silenciosa" pela vida
Flávia Henriques
Regional Monlevade
A carta redigida pelo médico monlevadense Frederico Bicalho Garcia tem tomado grandes dimensões na internet. Sensibilizado com o número de mortes na BR-381, a temida Rodovia da Morte, e a crescente estatística de óbitos de crianças, ele faz um alerta aos pais: é necessário utilizar sempre os acessórios de segurança.
Cirurgião geral no único hospital de João Monlevade, o Hospital Margarida, ele atende diversas vítimas feitas nas estradas da região do Médio Piracicaba. Na carta, ele cita os perigos da BR, o período de chuvas que agrava a situação e a falta de atenção dos condutores. “Mas quero deixar um alerta específico para os pais que viajam com crianças... Então, imploro a todas as mães que, ao viajarem com suas crianças, utilizem todos os acessórios de segurança possíveis e todo o tempo. Se tiverem que retirá-las da cadeirinha por qualquer motivo, peçam ao pai para parar o carro”, recomenda Frederico Bicalho.
Ao longo da mensagem o médico descreve duas situações em que participou da dor de familiares de bebês, que saíram feridos ou morreram por falta de pequenas decisões que fariam muita diferença para o final da história.
Apesar de não pedir providências dos políticos, o monlevadense optou por envia a sua carta para que o jornal Estado de Minas publicasse. Talvez, sua iniciativa seja um estímulo a mais para que nossos governantes agilizem a duplicação da BR e novas campanhas de conscientização no trânsito sejam organizadas.
Repercussão
O e-mail enviado pelo médico Frederico Bicalho tem repercutido e gerado uma séria discussão entre os internautas.
A engenheira de Segurança do Trabalho, Sheila Cristina Cotta, descreve em seu e-mail enviado a sua lista de contatos o sentimento de frustração. Nele, ela afirma que a carta é a melhor campanha para a utilização de cinto de segurança. “Pena, que mesmo escutando os relatos, lendo desabafos e muitas vezes, vendo o que acontece às pessoas, ainda não utilizam o cinto”, analisa.
A engenheira conta que alguns de seus amigos foram acionados para o resgate, que teve a constatação do óbito do bebê. “... e contam com lágrimas nos olhos o que presenciaram”, revela Sheila.
Dados daBR-381
Em 2008 foram registrados 8.207 acidentes, com 277 mortes no local. De acordo com as informações da ONG Anjos do Asfalto, desse total de acidentes, 40% dos feridos morrem no caminho para o hospital ou alguns dias depois, o que pode elevar este número para mais de 500 mortes.
Entretanto, estes números aumentaram nos últimos anos. Os
feriados de Natal e Ano Novo (2010/2011) contribuíram para essa triste estatística. Veja abaixo:
Natal – 0h do dia 24/12/10 a 11:59 do dia 26/12/10 (3 dias)
1.884 – Acidentes
1.361 – Feridos
117 - Mortes
Ano Novo - 0h do dia 31/12/10 a 11:59 do dia 02/01/11 (3 dias)
1844 – Acidentes
1294 – Feridos
106 – Mortes
Os números assustam, em seis dias 223 vidas perdidas.
Confira a carta na íntegra:
Prezados amigos, gostaria imensamente que publicassem esta carta.
Meu nome é Frederico Bicalho Garcia. Moro na cidade de João Monlevade, onde nasci e trabalho como cirurgião geral no Hospital Margarida, único da cidade, há 10 anos.
Infelizmente, o que eu quero compartilhar com vocês é uma grande tristeza, frustração e sensação de impotência. Nesta época do ano, em que se somam aumento do trânsito na BR 381 (conhecida como “rodovia da morte” e que corta nossa cidade) e período de chuvas, recebemos diariamente em nosso Hospital dezenas de vítimas de acidentes da estrada. E, apesar do elevado número de tragédias, não conseguimos nos acostumar com elas. Mas quero deixar um alerta específico para os pais que viajam com crianças.
Esta semana tivemos 2 exemplos que nos marcaram. No dia 28 de dezembro atendi uma família que se envolveu em um acidente. Estavam no carro, pai, mãe e 3 crianças, uma delas bebê de colo. Esta criança viajava em sua cadeirinha, com cinto de segurança corretamente colocado, mas no momento do acidente a mãe havia tomado-a no colo para amamentar. Como resultado, a criança foi ejetada para fora do veículo, o que configura uma situação de grande risco e associado à alta mortalidade. No entanto, sofreu apenas leves hematomas e recebeu alta do Hospital 24h depois do acidente, em ótimas condições.
Acreditem ou não, 2 dias depois tivemos uma situação idêntica. Pai, mãe, 3 filhos, sendo um bebê de colo corretamente colocado da cadeirinha, que saiu apenas para amamentar ao peito da mãe, quando ocorreu o acidente. Toda a família foi encaminhada ao nosso Hospital, sem apresentar nenhuma lesão de maior gravidade, apenas pequenos arranhões e hematomas. Quando me chamaram para atendê-los, perguntei à mãe se ela sentia alguma dor, pois chorava muito, quando ela me disse que seu bebê havia morrido no acidente. Ao lado, uma menina de 9 anos, chorando continuamente por ter perdido um irmãozinho de 3 meses de vida. Que remédio eu poderia receitar para ela, para aliviar sua dor? Confesso que tive que me afastar do pronto socorro por alguns instantes para aliviar as lágrimas que me vieram aos olhos. Tenho 2 filhas, uma delas da idade daquela menina e a outra com apenas 2 anos, e só conseguia pensar nelas e o que representam em minha vida. Acho que todos nós pensamos que não conseguimos viver sem nossos filhos, até que uma tragédia aconteça. Apenas Deus pode ser o remédio para aliviar o sofrimento daquela menina e sua família.
Então, imploro a todas as mães que, ao viajarem com suas crianças, utilizem todos os acessórios de segurança possíveis e todo o tempo. Se tiverem que retirá-las da cadeirinha por qualquer motivo, peçam ao pai para parar o carro. Serão perdidos apenas alguns minutos. Hoje uma família chora por não ter agido assim.
E se alguém importante em nosso país estiver lendo esta carta, saiba que apenas a duplicação da estrada é a solução para salvar muitas vidas que, certamente, continuarão a se perder nesta nossa atual realidade.
Obrigado pela atenção.
Fonte: DeFato Online
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