quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Planejamento para crescer

12/10/2011 08h06

Presidente da Acita quer que itabiranos estudem, de forma frequente, as maneiras sustentáveis de diversificar a economia na cidade. Fim da mineração, falta de água e infraestrutura são problemas a serem superados

Sérgio Santiago

Natural de Bom Sucesso, no Sul de Minas, e itabirano de coração há mais de 30 anos, o empresário José Antônio Reis Lopes, 56 anos, ainda no início de seu segundo mandato como presidente da Associação Comercial, Industrial, de Serviços e Agropecuária de Itabira (Acita) se lança a um desafio: promover um fórum de discussão sobre a diversificação econômica da cidade, assunto tão comentado, principalmente entre políticos em época de eleição. Esse desafio é do tamanho da necessidade de tornar Itabira independente da mineração. A vontade de vencê-lo se equipara ao otimismo de José Antônio, que se considera um estudioso da área de desenvolvimento.

O presidente da Acita está à frente da entidade há dois anos e meio. É formado em Administração pela Funcesi e em Automação Industrial. Trabalhou na Xerox do Brasil, no Grupo Votoratim e na Vale. O grande sonho, no entanto, era ser dono do próprio negócio, o que vem concretizando à frente também da Lopes Lar, casa especializada em material de construção e acabamento.

Há 25 anos saiu da Vale e montou sua empresa, hoje com 25 funcionários. A esposa, Maria de Lourdes, também é empresária, e as duas filhas, Mara e Marisa, cursam administração. José Antonio presta serviços à Acita faz 13 anos. Como associado, já são 25. Ele também faz parte do Rotary e de dois conselhos municipais, um deles, o de Desenvolvimento Econômico. Sempre interessado em assuntos da comunidade, como itabirano por opção, não deixa de se preocupar como o futuro da cidade em termos econômicos e sociais.

No último dia 13, foi inaugurada a nova sede da Acita, instalada em um prédio de arquitetura moderna, reflexo de um projeto que quer estabelecer uma nova mentalidade administrativa na cidade, voltada para a diversificação econômica e atração de novos investimentos. Na inauguração da sede, o presidente da Acita apresentou o Projeto de Desenvolvimento Socioeconômico e Ambiental Sustentável de Itabira, com a proposta de discutir problemas como abastecimento de água, a falta de um aeroporto, a duplicação da BR 381, a construção de novas áreas industriais e planejamento urbano. O projeto cria um Fórum Permanente de Desenvolvimento, com a participação de representantes do poder público, iniciativa privada, instituições de Ensino Superior e sociedade civil, e o Plano Decenal de Investimentos Públicos na Diversificação Econômica, ferramentas pelas quais a Acita espera colaborar e orientar no desenvolvimento sustentável da cidade. Na entrevista a seguir, José Antônio Reis Lopes mostra qual pode ser o caminho para Itabira — terra eternizada na poesia por Drummond— para quando a cidade deixar de ser também a terra do minério.

Fala-se muito em diversificação econômica de Itabira. Como está a situação do município, na avaliação da Acita?

Todos nós sabemos que a exaustão mineral um dia acontecerá. Temos exemplos mundo afora, como as minas da Alemanha e da França. A Acita tem um histórico de discussões sobre essa questão — como na criação da lei do Fundesi, na qual a associação teve grande participação, e nos dois distritos industriais — exatamente com a preocupação da diversificação econômica. O assunto vem sendo conduzido pela comunidade empresarial, pelo poder público municipal e pela comunidade de forma geral. Só que a Acita entende que isso precisa ser colocado como um projeto, para uma discussão permanente. Entendemos que o empresário é peça fundamental no desenvolvimento econômico de qualquer cidade. Ele tem de estar presente junto ao poder público. Para isso, a Acita propõe o Fórum Permanente de Sustentabilidade.

Como será a formatação desse Fórum?

A Acita, como entidade empresarial, se propõe a reunir um grupo de empresários para esta discussão, e este grupo fará propostas de políticas públicas para apresentar ao poder público, Prefeitura e Câmara. Temos dois diretores da Acita que pegaram essa ideia e estão trabalhando nela. Este Fórum não será só de empresários. Terá participação de representantes da sociedade civil organizada, da classe empresarial e o poder público. Então, a Acita, como propositora desse debate, convidará esses setores representados para o Fórum, que terá estatuto e critérios de estabelecidos, além de um cronograma de reuniões.

Qual é sua opinião sobre o atual momento, no que diz respeito a investir em alternativas industriais e econômicas?

O momento é muito otimista, porque a conjuntura econômica do município está muito forte. Vamos citar como exemplo a principal atividade econômica, a mineração. A Vale está vendendo muito e o minério de ferro no mundo nunca esteve tão valorizado. Percebi que, desde que cheguei em Itabira, o preço da tolenada do minerio vem aumentando singificativamente. A base econômica da cidade está batendo recordes em cima de recordes; estamos aí com um projeto de revisão dos royalties, que pode até dobrar a receita do nosso município. Isso pode mudar muito a nossa realidade de arrecadação, que já e boa. Mas isso, é quando se pensa em Vale.

Agora, quando a gente abre o leque, podemos pegar, por exemplo, os investimentos que foram feitos nas estradas. Moro há mais de 30 anos em Itabira. Quando cheguei aqui, era um sonho essa estrada ligando a cidade a Nova Era. De repente, recebemos o asfaltamento de Itabira a Nova Era, a João Monlevade e aos distritos. Recebemos o segundo maior investimento do Governo de Minas em estradas, que é a terceira pista entre Itabira e a BR- 381. Estamos para receber uma nova 381. Com esses investimentos, diversos investimentos virão para a nossa região. Hoje as indústrias não vêm porque empresário nenhum quer arriscar a vir para uma região onde a estrada trava todo dia. Quando a BR-381 estiver pronta, a região toda vai ganhar uma visibilidade muito grande. E nosso município precisa estar preparado para isso. A Vale investiu US$ 2 bilhões na usina Conceição. Quais municípios brasileiros estão recebendo um investimento destes? São pouquíssimos.

Esse momento próspero não veio um pouco tarde?

O momento de Itabira, realmente, nos dá toda condição de nos prepararmos para o futuro, está excelente. Uma cidade que ganhou, de uma hora para outra, uma universidade federal (Unifei), tem o privilégio de poucas no Brasil. O que essa universidade vai mudar na cidade em termos de economia, é uma coisa imensurável. Estamos trazendo informação e conhecimento para nossa cidade. Mas Itabira ainda está atrasada. Acho que poderia estar fazendo isso há muito tempo. Durante um longo período, perdemos tempo, mas a cidade agora começa a se preparar. Agora é dar sustentação daqui para frente, e aí entra a Acita, como propositora de um projeto de continuidade que vise o planejamento permanente.

Com a vinda da Unifei para Itabira, como fica a possibilidade de implantação de empresas de base tecnológica?

A gente enxerga a Unifei como muito além de uma simples disseminadora do conhecimento. Ela é uma entidade captadora de novos negócios. O próprio prefeito João Izael já disse isso. A Acita também pensa exatamente a mesma coisa. Se você tem uma entidade que traz conhecimento, do nível da Unifei, esse conhecimento traz inovação e a inovação traz o progresso. Temos o projeto do Parque Tecnológico, fantástico! O parque sem o conhecimento seria inviável. Itabira foi muito inteligente e criou o parque e, junto, chegou a Unifei. Então, temos a universidade para trazer o conhecimento e o parque colocar esse conhecimento em prática.

Considerando a importância econômica e cultural do município, esses investimentos não vieram um pouco tarde?

Não resta dúvida. Sempre reforço: tudo o que está sendo feito hoje deveria ter sido feito há muito mais tempo. Mas agora estamos no caminho certo. Temos de raciocinar que o minério de ferro não é um problema apenas porque não vai acabar um dia. Temos de pensar que toda a commodity depende de um mercado. O mercado é que regula. Se hoje temos um mercado muito grande para o minério, amanhã não sabemos como ele vai estar. Sabemos que temos minério para tantos anos, mas não sabemos para quantos anos temos mercado. Se vier uma nova crise mundial, como a que ocorreu em 2009, a cidade tem de ser preocupar com isso, porque não é só o minério que pode acabar. O mercado também pode. Novas ligas são desenvolvidas no mundo a todo momento, com novas tecnologias. A cada dia o minério está sendo mais substituído por outros elementos.

Itabira tem gargalos, como a falta de infraestrutura logística e o problema da água. Como vencer esses desafios?

Qual empresa grande que vai arriscar investir em uma região em que há sombra de dúvida de que vá faltar água? Itabira, definitivamente, precisa resolver esse gargalo. Novas áreas para novos investimentos precisam ser viabilizadas. Antes, a indústria vinha e montava uma grande fábrica, num pedacinho de terreno. Hoje, esse conceito não existe mais. As indústrias querem um terreno muito grande, por várias exigências, até por questões de meio ambiente. O empresário já monta uma indústria com planos de expansão para o futuro. Antigamente, não havia isso. Não temos distrito, não temos área disponível, não temos água para sustentar grandes indústrias — embora tenhamos esses recursos em potencial. Esses gargalos precisam ser superados. Conheço exemplo de uma cidade de Minas, para onde uma indústria de autopeças quase desistiu de ir por causa do aeroporto, que ficava muito longe da área industrial. O prefeito disse assim: “então, eu mudo o aeroporto de lugar”. Itabira não tem nem o aeroporto. É esse tipo de questão que a gente vai debater no Fórum. Entendemos que não é só cobrar do poder público, isso é muito fácil. Precisamos ajudar a discutir as necessidades da nossa cidade, fazer a nossa parte, ajudar.

E em relação ao turismo, o potencial é bem explorado?

Itabira tem muitas belezas naturais e a vocação para o turismo cultural. A história de Drummond é muito forte. A cidade também acordou para o turismo. A oportunidade é grande, porque, se a gente perguntar qual é o grande projeto turístico de Minas Gerais, a resposta é a Estrada Real. Não vejo falar em outro grande projeto. Tem Copa do Mundo e as Olimpíadas, mas esses serão eventos passageiros. O nosso turismo é permanente, é eterno. Drummond é eterno. As belezas naturais também, desde que cuidemos dela. Está em nossas mãos um grande potencial. Acho que dá para fazer mais. Sempre reconheço o que está feito, mas pode ser um pouco mais, até mesmo por parte da classe empresarial, que é parte fundamental. A Acita tem suas responsabilidades, em despertar nesses empresários a necessidade de ajudar os que já estão dentro do mercado turístico. Claro que a Acita tem de buscar parcerias, e já temos diversos parceiros nessa área.

O senhor falou sobre a nova Acita. A entidade está inaugurando uma nova fase?

Tudo isso que a gente está falando está voltado para um novo pensamento da Acita. Nova logomarca, novo planejamento estratégico, que representa uma nova fase. A Acita tem um passado muito bonito. Nesse caminhar, ela passou por dificuldades e facilidades. Nos últimos dez anos, foram tempos difíceis para a Associação, mas, graças à luta das diretorias, as dificuldades foram resolvidas e a Acita ressurge pronta para um novo caminhar. A nova sede é o ponto de referência dessa nova fase. O prédio foi construído dentro do conceito da nova Acita. A modernidade da sede, a acessibilidade, com espaço para treinamentos, salas e área de cobertura para confraternização, foram pensadas para atender ao empresário e à sua equipe. Mas isso é apenas a estrutura. O nosso objetivo é criar um novo espírito de desenvolvimento empresarial na cidade. Se nós temos uma boa administração pública e uma boa gestão na iniciativa privada, com certeza teremos desenvolvimento, não só da classe empresarial, mas de toda economia. Temos que somar forças para fortalecer o ambiente de negócios da cidade.

Fonte: DeFato Online

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