quarta-feira, 4 de agosto de 2010

2010.08.04 - Nosso Vietnã de asfalto – Jornal Bom Dia

João Monlevade - Entre os anos de 1959 a 1975, os Estados Unidos estiveram envolvidos em uma batalha sangrenta no sudeste asiático. Os motivos desta guerra nem dizem respeito ao Brasil, já que não participamos da Guerra Fria, esta por sua vez resultante da Segunda Grande Guerra.

Causa perplexidade até mesmo falar em guerras e citar o Brasil. Somos, por natureza geopolítica e histórica, uma nação pacífica e ordeira. Graças a Deus, diga-se de passagem.

Porém, causa ainda mais perplexidade descobrir que, por sermos um povo pacífico e ordeiro, somos confundidos com carneiros esperando o machado, no abatedouro.
Porque temos o nosso Vietnã todos os dias, no asfalto das estradas brasileiras, e em especial na mais sangrenta delas: a BR 381. E o nosso Vietnã, do mesmo jeito que o Vietnã dos americanos, não escolhe suas vítimas para destroçar.

Mas há uma diferença a nosso desfavor: os americanos podiam argumentar que o ambiente geopolítico era contrário a seus interesses, que a paz mundial estava permanentemente ameaçada e que o inimigo não poderia dominar aquela área sem espalhar sua influência sobre o resto do mundo. Nosso Vietnã de asfalto não tem sequer outros inimigos que não nós mesmos.

Não existe uma única guerra que não seja estúpida e que não seja cruel. Nelas, nunca há vencedores. Só vencidos e humilhados. Mas existem as guerras que conseguem ser ainda piores que as outras, porque se tratam de irmãos matando irmãos.

Nossos irmãos políticos estão nos matando, há muitos anos. Vão se refugiar atrás de muitas palavras bonitas para justificar o nosso Vietnã de asfalto. Mas não vão conseguir se esconder.

Porque cada mãe, cada pai, cada bebê e cada criança, cada idoso, cada homem e cada mulher que foram e que estão sendo triturados e esmagados pela BR 381 são vítimas não só da estrada. Nem são vítimas só dos motoristas imbecis que a cruzam todos os dias. São, principalmente, vítimas da total indiferença que os políticos brasileiros possuem em relação às nossas vidas.

Para estes velhacos, somos gado. Só isso; animais abestalhados, ruminantes sem noção, cuja única utilidade se resume a recolher muitos impostos e a votar porque somos obrigados a cada dois anos.

E a guerra segue. Nos anos 60, os americanos conheceram o "inferno verde", porque os guerreiros vietcongues conheciam muito bem aquelas selvas. Aqui no Brasil, está passando da hora de apresentarmos um inferno parecido aos trastes políticos que dizem ser nossos representantes.

Temos que obrigá-los, pela Lei ou pela força, a trafegar pela BR 381 de carro ou de ônibus, como nós cidadãos fazemos. Porque trafegar por cima dela empoleirado num avião ou num helicóptero, qualquer um faz sem medo algum. Nem de destroçar nem de ser destroçado...

São muitas cidades, muitas pessoas e muitas vidas. Muitos futuros envolvidos numa questão que é complexa para a gente resolver sozinho. Mas João Monlevade pode fazer alguma coisa mais efetiva, e marcar posição no mapa político brasileiro.

Talvez entrar com uma Ação Civil Pública, obrigando o governo a indenizar com milhões a cada cidade no entorno da rodovia. Os milhões não trarão nenhuma vida de volta, sabemos disso. Mas deixar tudo como está poderá levar muitas vidas para o mesmo buraco negro da ignorância, do desprezo por nossa cidadania e do desamor por filhos do Brasil que estão sendo assassinados aqui mesmo, numa guerra estúpida em que a omissão de brasileiros está matando brasileiros.

Particularmente, cansei. Eu não trafego mais, a menos que seja obrigado por forças titânicas, pelo Vietnã da BR 381. Não tenho a menor intenção de ser assassinado pela sem-vergonhice e pela arrogância de quem me desgoverna. Há muitos anos.

Agora, só acredito no que for registrado em Juízo, com prazo definitivo para acabar com esta guerra estúpida e para modernizar e duplicar esta rodovia. Porque, ao contrário dos americanos, nós não vamos agüentar tanto tempo morrendo na selva.

Por Célio Augusto de Lima

Fonte: Jornal Bom Dia

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