domingo, 10 de junho de 2012

Prometida há anos, obra do Rodoanel nem tem projeto

Novela.Governo federal excluiu rodovia da relação de prioridades, mas Dnit garante licitação para este mês

Ligação de contorno em Belo Horizonte tiraria carretas de dentro das cidades

Publicado no Jornal OTEMPO em 10/06/2012

JOELMIR TAVARES

FOTO: ROBERTO SERNIZON/DIVULGAÇÃO - 22.5.12foto_09062012203042Caos. Anel Rodoviário parado por causa de acidente; via poderia ser desafogada com o Rodoanel

Existe uma solução para boa parte dos problemas do trânsito de Belo Horizonte. O Rodoanel, um contorno que vai ligar as rodovias que cortam a região metropolitana e retirar de dentro das cidades o tráfego de veículos pesados, é uma alternativa para reduzir os congestionamentos e acidentes na capital, como o que aconteceu na noite da última quarta-feira na avenida Nossa Senhora do Carmo, envolvendo uma carreta. Apesar da necessidade urgente da obra, discutida há pelo menos 20 anos, a proposta está engavetada, à espera de uma atitude do governo federal, responsável pela execução.

O que existe até hoje é só um estudo básico do traçado das alças Norte, com 67,5 km, e Sul, com 35 km. Primeiro passo para a via se tornar realidade, a licitação do projeto executivo está prometida pela superintendência do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) em Minas Gerais para ser publicada ainda neste mês. O órgão, no entanto, fez anúncios semelhantes pelo menos quatro vezes nos últimos dois anos.

A exclusão do Rodoanel da lista de prioridades do governo federal faz aumentar a desconfiança sobre a publicação imediata da concorrência. Por indicação de técnicos do Ministério do Planejamento, a presidente Dilma Rousseff vetou o projeto no Plano Plurianual (PPA) 2012-2015, justificando que a iniciativa se sobrepõe a outra prevista no documento, a revitalização do Anel Rodoviário.

"O governo cometeu um erro grave. São obras distintas, que, apesar de se complementarem, cumprem objetivos diferentes", analisa o conselheiro do Instituto da Mobilidade Sustentável Rua Viva, João Luiz da Silva Dias. Antes de ser sancionado por Dilma, em janeiro, o plano plurianual foi aprovado pelo Congresso Nacional. É a partir do PPA que se decide a liberação de verbas.

O Ministério dos Transportes, ao qual o Dnit está vinculado, não explicou se a retirada do Rodoanel do PPA pode atrasar ou até impedir a licitação. Para que a obra seja novamente incluída na relação de prioridades, o Congresso precisa derrubar o veto da presidente.

Há 11 dias, o diretor geral do Dnit, general Jorge Fraxe, prometeu a políticos da bancada mineira em Brasília que a concorrência será publicada até julho - um mês além do prazo dado pela superintendência do órgão em Minas. O recurso para a primeira etapa está disponível, conforme o Dnit. A verba a ser liberada é estimada em R$ 3,6 milhões. No total, a construção das alças custaria R$ 1 bilhão.

Histórico. Embora especialistas alertem sobre a importância do Rodoanel há décadas, o projeto começou a ganhar corpo em 1999, quando uma missão do Banco Mundial (Bird) classificou a obra como fundamental para ajudar a resolver parte dos gargalos logísticos da região metropolitana.

O projeto básico da alça Norte foi elaborado entre 2001 e 2004, a pedido do Dnit. O da Sul foi produzido em 2010 por encomenda da Fiat Automóveis - interessada na construção do trecho que atenderia Betim, onde fica a montadora.

Tragédia Evitável

O acidente com uma carreta com bobinas de aço, na última quarta-feira, na avenida Nossa Senhora do Carmo, poderia ter sido evitado se o Rodoanel já existisse. Três pessoas morreram.

ALÍVIO

Anel será principal beneficiado

O maior objetivo do Rodoanel é permitir que o tráfego das BRs 381, 262 e 040 deixe de usar a região metropolitana de Belo Horizonte como corredor. Muitos caminhões carregados transitam desnecessariamente pela área urbana rumo a municípios do interior e a outros Estados.

A via mais sobrecarregada por esse fluxo pesado é o Anel Rodoviário, por onde passam diariamente 25 mil veículos de carga. Estimativas feitas pelo Dnit na década passada mostraram que o contorno metropolitano retiraria pelo menos metade dos caminhões do Anel.

Construída nos anos 50, a via tinha características de tráfego rodoviário, mas hoje é de uso misto, com mais de 120 mil veículos de todos os tipos circulando diariamente. A perigosa combinação de carretas, veículos de passeio, ônibus e motos resulta em acidentes e atropelamentos diários, com reflexos em avenidas importantes. O Dnit, responsável pelo Anel, admite que o trecho opera "acima do limite de sua capacidade". Esperada há anos, a revitalização do Anel poderá ser autorizada nos próximos dias.

Outras vias como as avenidas Cardeal Eugênio Pacelli, em Contagem, e Amazonas, em Belo Horizonte, além da Via Expressa, que corta os dois municípios e Betim, sofrem as consequências da ausência de uma ligação entre as rodovias federais.

"A passagem dos veículos pesados por dentro das cidades castiga os moradores e os próprios caminhões, que enfrentam os congestionamentos do tráfego urbano e gastam mais tempo e combustível", analisa o economista João Luiz da Silva Dias, conselheiro do Instituto Rua Viva, ONG da capital que defende o Rodoanel. (JT)

Construção do trecho só deve começar em 2014

Mesmo que a concorrência para o projeto de engenharia do Rodoanel seja publicada até julho, a construção dificilmente vai começar em 2013. Estima-se que a elaboração das plantas deverá demorar um ano e meio. Depois disso, ainda será preciso licitar a obra, o que vai levar alguns meses. Se tudo correr como esperado, só será possível ver homens e máquinas trabalhando em 2014.

"O problema no Brasil é que demoram tanto a fazer as obras que, quando fazem, já é tarde", critica o empresário Marcos Santana, vice-prefeito da capital entre 1997 e 2000 e hoje conselheiro do Instituto Horizontes.

O Planejamento da Região Metropolitana de Belo Horizonte (Plambel), feito nas décadas de 70 e 80, já defendia a construção do Rodoanel. A obra também é uma das bandeiras do Instituto Horizontes. "Infelizmente, falta vontade política para a obra se concretizar. Temos que continuar cobrando", diz Santana. (JT)

TRAÇADO

Pista vai atravessar dez cidades

Rodoanel vai atingir regiões já ocupadas e outras que ainda não têm moradores

Joelmir Tavares

Para fazer o contorno em Belo Horizonte, o Rodoanel irá cortar o território de dez municípios da região metropolitana, passando por áreas já ocupadas e outras ainda sem urbanização. A ideia é que seja construída uma rodovia moderna, com estrutura capaz de atender ao movimento esperado, incluindo os caminhões e carretas deverão formar metade do fluxo.

O projeto básico da alça Norte prevê que a estrada, com pista dupla, tenha limite de velocidade de 100 km por hora. Cada faixa terá 3,5 m de largura, totalizando 7 m. Além disso, haverá uma faixa de segurança interna de 1 m e acostamento externo de 3 m. Está previsto também um canteiro central de 21 m, que poderá ser usado em ampliações futuras. O planejamento da alça Sul é parecido, com a diferença que o canteiro será mais estreito.

Segundo o engenheiro civil Everaldo Ávila Cabral, que elaborou o estudo de diretrizes dos dois trechos, o espaço no canteiro na parte Norte permitiria a criação de uma terceira faixa de cada lado. "No total, a área de domínio é de 100 m", explica.

Cabral percorreu toda a extensão da futura rodovia a pé e de carro. Ele diz saber até os lugares onde há mais carrapatos. "Com essa nova ligação, milhares de veículos que passam dentro de Belo Horizonte e outras cidades sem necessidade terão uma alternativa muito mais eficaz e segura", afirma.

O estudo que serve de base para o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) privilegia o contorno metropolitano como uma via de mobilidade, e não de acessibilidade. "Num primeiro momento, o objetivo é fazer a ligação entre as rodovias que passam pela região, e não promover a comunicação viária entre cidades", detalha o engenheiro. Segundo ele, à medida que começarem a surgir aglomerações nas margens, será necessário abrir pistas laterais.

Andamento

Conforme nota do Dnit, o processo da alça Norte está mais adiantado que o da Sul, porque "terá um impacto maior sobre o tráfego na capital e rodovias no entorno de Belo Horizonte, incluindo o Anel Rodoviário". A primeira promessa do Dnit era que o projeto executivo da rodovia estivesse pronto no primeiro trimestre de 2008.

Nos últimos anos, o governo de Minas e a Prefeitura de Belo Horizonte cobraram a execução da obra. No ano passado, o Agenda Minas – documento assinado pelo governador Antonio Anastasia, empresários e deputados federais, com 16 projetos considerados essenciais para o Estado – incluiu o Rodoanel. O manifesto foi entregue ao governo federal.

Obras

Duração. A superintendência do Dnit em Minas estima que a alça Norte do Rodoanel deve demorar entre três e quatro anos para ficar pronta. O vetor Sul, mais curto, deve demandar menos tempo.

Por onde vai passar o Rodoanel

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Fonte: O Tempo

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